Durante vários anos, ensinei para jovens adolescentes, mulheres maduras que buscavam aprender mais, criar e superar suas limitações. Durante as aulas, desenhávamos e conversávamos e, em muitos momentos, surgiam assuntos sobre sexualidade, preconceito, valorização profissional, violência contra a mulher, a ditadura dos padrões de beleza, participação política e outros.

Ao mesmo tempo que mergulhávamos nos desenhos e experimentávamos o desafio de criar, buscávamos também aumentar a confiança e a autoestima. Ao serem capazes de colocar no papel ideias e emoções, elas exercitavam uma forma de fortalecimento e superação das dificuldades. Já tive alunas que disseram ter conseguido parar de tomar remédios para dormir quando começaram a desenhar, assim como já tivemos uma aluna que sofreu um espancamento do marido e o denunciou, mas soube que, após um tempo, teve que aceitar uma reconciliação por não ter como criar seus filhos sozinha. Houve um caso de uma aluna que, após anos de luta na criação dos filhos e de sofrer com maus-tratos, partiu para a separação, voltou a estudar e conseguiu fazer supletivo e até iniciar um curso universitário. Outra sofria espancamento do marido, muito mais velho que ela, e, após alguns anos, acabou abandonando a família e recomeçando sua vida longe dos filhos. Enfim, mais do que aprender a desenhar, nós aprendíamos a superar desafios, resistir e utilizar outros exemplos pra mudarmos o rumo de nossas vidas. A semelhança de muitas histórias é capaz de gerar cumplicidade, compaixão e fortalecer laços entre mulheres que nunca tiveram a oportunidade de aprender arte e nem esperavam que a atividade criativa pudesse abrir novas possibilidades de refazer caminhos.

Eu sempre defendi a arte como área de conhecimento mas, também sempre utilizei a atividade artística como uma passagem para outros territórios quando desbravar emoções pode gerar satisfação e plenitude.

A arte é capaz de estimular e impulsionar uma energia nova que vai atuar como um rodamoinho, transformando nossas vidas, e principalmente, servindo para empoderar mulheres e ampliar sua atuação na comunidade onde elas vivem.

É por isso que várias vezes utilizei a frase: “vamos fazer da vida uma arte e da arte um alimento para a vida”.

 


Imagem em Destaque: Mulher Negra – Fragmento de Pintura de Rose Valverde

 

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